domingo, 23 de março de 2014

Mar Salgado

Mar Salgado 

"Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.

Quem quere passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu."

Fernando Pessoa


Já se aproximam os dias longos ... e um estado de mar "gerível". Os sinais de primavera já são visíveis nas pedras e paredes de fronteira terra-mar ...





O mundo é grande mas o imaginário individual matem certos rituais vivos; como se fosse obrigatório por ali passar e prestar "prova de vida".





Vila Franca do Campo - Marginal e Ilhéu (Azores - Portugal)

Vila Franca do Campo - Marginal e Ilhéu

Ainda não começou a estação dos dias quentes e longos mas já se nota diferença na luz  e cores da orla marítima de Vila Franca. Já se nota o cheiro ao "sargaço" e já apetece começar a "arejar" as "ferramentas" náuticas e de pesca.
Vila Franca pode até ser tão marítima como qualquer outra vila insular mas ... tem uma "mística" própria; tem uma mistura de urbano e profissional com o lúdico e com espírito de aventura. Não sei se esta imagem de liberdade e fusão com o mar resulta da tradição das crianças, das que constroem os seus "kayakes"/"chatas" e se aventurarem a atravessar o canal do Ilhéu; se das
habituais narrativas de tasca associadas a aventuras inéditas típicas de marinheiros. A verdade é que a zona portuária da "Vila", apesar das enormes alterações ocorridas nos últimos 20 anos, continua ocupada e viva, mesmo e apesar do encerramento da fábrica de conservas da Corretora.


 



Desde à muito que me questiono acerca da razão porque aqui veio parar a estátua do Infante D. Henrique. Bem sei que esta foi a primeira Capital da Ilha e que o Infante morreu quando a Ilha já estava ocupada (1460). Todavia a estátua é bem posterior a essa data e teria cabimento em qualquer outra cidade do arquipélago.

Segundo consta, esta estátua do Infante D. Henrique, de José Simões de Almeida (sobrinho) (1880-1950), foi inaugurada em 1932, para comemorar os 500 anos da chegada dos portugueses ao Arquipélago dos Açores, mais precisamente a Santa Maria e a São Miguel, em 1432.


Não sei se por acidente ou não, o passeio marginal à praceta onde está a ermida de S. Pedro Gonçalves (patrono dos pescadores) e se encontra a estátua, está profusamente preenchido com símbolos da Ordem de Cristo (de alguma forma a metamorfose da Ordem dos Templários, em Portugal). Será que a actual representação dessa Ordem (re-metamorfoseada ou não) se encontra em Vila Franca?  Será que os Condes locais (ausentes) foram os titulares dessa representação?





Embora as grandes empresas marítimas de exploração ou corso à muito tenham terminado, a Vila foi-se adaptando aos tempos que corriam. No século passado aportavam por ali as atuneiros da corretora e, no século XXI, apareceu uma excelente marina de recreio, associada a uma unidade hoteleira, a um "aqua-parque" e à "Praia das Francesas".








Os "kayakes" e "chatas" da Vila mantêm o seu poiso próprio junto ao antigo Forte mas parece que algumas lanchas baleeiras do Pico vieram invernar a esta marina.





Felizmente ainda alguns sinais do antigo ambiente urbano da vila ainda resistem à saga transformadora dos "subsídios" da Europa.





"Açor-Arena" - Mais uma obra fruto da grandiosidade de espírito e acção de titular de cadeira autárquica. Inaugurada com pompa e circunstância e explorada enquanto houve meios públicos (e crédito) abundantes, encontra-se em fase de "repouso". Espera-se que não seja uma "reforma compulsiva", com aquela a que foram obrigados muitos dos que participaram na sua construção.




















Povoação rural - S. Miguel (Azores)

Concelho da Povoação (Lombas)
S. Miguel - Azores Islands / Atlantic 


Um dos primeiros dias de Primavera de 2014. Já à muito tempo que por aqui não passava e resolvemos fazer um dos percursos menos comum, passando pelos Arrastadouros e Monte Simplício e pelas várias vias de união Norte da "Radial de Lombas".
A expectativa é, quase sempre, a de encontrar novidades e, na falta destas, de encontrar diferentes perspectivas. E, com alguma criatividade e imaginação,  perspectivas são naturalmente sempre mais abundantes do que novidades (reais) num "mundo" periférico de um arquipélago "ultraperiférico".


http://en.wikipedia.org/wiki/Povoa%C3%A7%C3%A3o_%28Azores%29
 

Quem tenha um razoável conhecimento do concelho, talvez possa dizer que poucas das bandeiras úteis, da retórica publico-partidária do passado, tiveram consequenciais práticas. A via circular periférica a Norte das Lombas (Arrastadouros) continuam no estado de à 5 décadas, ou pior; a ligação do concelho à rede viária rápida (conhecida por na ilha por SCUT) não foi feita; as vias alternativas de acesso às estranguladas Lombas não foram iniciadas; a construção civil (edif. novos e reparações) implodiu  e o turismo externo quase que evaporou (exceptuando Furnas, a captação de receita de origem turística, e consequente geração de emprego, continua irrelevante).

Parece que os dias de esperança no futuro, propagandeado por grupos partidários transitórios, apoiados na alavanca dum endividamento público "escandaloso", e não responsáveis pessoalmente pelas consequencias sua gestão, acabaram. O povo vai entranhando a ideia de que quem manda é quem paga e que foi pagando nas últimas décadas já não tem meios, restando-lhes agora a função de recolher de uns, e com juros, aquilo que foi gasto por outros sem parcimónia.


Como consequência desse estado de coisas o povo local, silenciosamente como é típico nas periferias, vai se adaptando e ajustando às circunstancias e às alternativas disponíveis. A actividade pecuária continua tão activa como nas últimas décadas, os serviços públicos continuam a suportar algum emprego e a manter os espaços públicos com aspecto digno e, por fim, a população local continua a exibir a simpatia de sempre.



 


Dia de Primavera mas, mesmo assim, sujeito às consequências da atmosfera Atlântica e da altitude, com  um cinzento nevoeiro a interromper os momentos solarengos que vão aquecendo os corpos e as almas.
 
 
 
Lomba do Botão



Parque Eólico da EDA (concessionária exclusiva de produção e distribuição eléctrica nos Açores)
 


Monte Simplício (incluindo Ermida de Nossa Senhora do Monte)






 Aconchegadas nos recantos resultantes de antigos e tempestuosos acidentes atmosféricos e telúricos,   encontra-se aquilo que em linguagem "micro" se poderá chamar os subúrbios da "Vila".

  


E descendo das "Lombas" em direcção à "Vila" encontram-se incrustadas à Lomba do Cavaleiro as estruturas associadas ao campo de Futebol do Clube Mira-Mar e o famoso, e já legendário (por preocupantes  motivos), "Complexo de Piscinas Cobertas do Município da Povoação"




Ao longe nem se nota muito a sua existência. Com um desenho, posicionamento, textura e cor algo “inconspicuos”, dão-lhe uma presença quase furtiva na paisagem.

Todavia as aparências (muitas vezes) iludem. E este parece ser um desses casos. Trata-se de um elemento arquitectónico bem integrado e valorizador da paisagem humanizada mas ... (infelizmente tem um grande "mas") ...

E este "mas" não tem a ver com o objeto construido, mas com a desproporcionalidade do esforço que foi feito para o construir (e pagar e sustentar), comparado com a dimensão humana, necessidades, aspirações e riqueza da localidade.